Tratamento da Osteoporose: muito além do calcio e vitamina D

A osteoporose é uma doença metabólica, caracterizada por uma diminuição progressiva da massa óssea, com modificações na arquitetura trabecular, levando à diminuição da resistência óssea e a um maior risco de fraturas, em presença de traumas de baixa energia ou menor impacto.

A osteoporose pode ser de causa primária, ligada ao processo de envelhecimento ou secundária ligada à enfermidades como: hipogonadismo, tireoideopatias, hipopituitarismo, síndrome de cushing, hiperparatireoidismo, câncer, doenças inflamatórias intestinais, doenças renais, uso de medicamentos, cigarro, álcool, sedentarismo, etc.

Tem uma alta incidência mundial.Estima-se que nos próximos anos haverá um crescimento de 10 milhões de pessoas portadoras , sendo que destas, 2,4 milhões sofreram algum tipo de fratura e destas 200 mil poderão vir a falecer.

Bom frente a estes números, aliado ao fato de que estamos envelhecendo e a osteoporose está muito ligada ao processo de envelhecimento, você consegue vislumbrar a importância deste assunto, não é mesmo?

Para começarmos a falar sobre a osteoporose, vamos entender um pouco sobre a formação óssea.

Segundo uma matéria publicada pela FEBRASGO (federação brasileira de ginecologia e obstetricia) em 2006 na Femina, os ortopedistas denominam o osso como sendo um tecido flexível e ao mesmo tempo rigído, que deve ser leve a ponto de facilitar os movimentos e ao mesmo tempo suportar grandes sobrecargas.

O osso é formado por uma grande parte de componente orgânico, que corresponde a cerca de 70% do seu volume total e 23% do peso seco. Este componente organico  é formado em 95 % por colágeno do tipo I e outras proteínas de matriz como GLA, fosfatase alcalina e demais.

O colágeno ósseo é o molde ósseo verdadeiro que sofre a impregnação de minerais e oligoelementos, dentre eles a maior parte está formada por cálcio na forma de hidróxido de apatita e fosfato, mas contendo também cobre, magnésio, zinco ,silício, fluor, ferro.
Para a formação do osso temos a formação de uma célula que é denominada de osteoblato. É o osteoblasto que é responsável pela formação de colágeno e posterior mineralização óssea. Isto permite que sempre ocorra a formação de tecido ósseo.

Uma das funções do osso é o armazenamento de cálcio. Quando  nosso organismo precisa deste mineral, uma outra célula é estimulada, o osteoclasto, que fara a reabsorção óssea e então liberação de cálcio e fósforo para a corrente sanguínea.
É o equlibrio entre a formação óssea ,através dos osteoblastos, e a reabsorção óssea, através dos osteoclastos que faz com que tenhamos um perfeito equilíbrio neste tecido.

O pico de formação do tecido ósseo se dá por volta dos 35 anos de idade e se mantém até por volta dos quarenta anos de idade, começamos então o processo de perda óssea. Este processo ocorre tanto em homens como em mulheres, e aí eu faço o meu primeiro adendo.

Se vocês observarem, o processo de perda óssea ocorre ao mesmo tempo do processo de sarcopenia, que é a perda de tecido muscular relacionado a idade. Detalhe, mesma idade, mesma proporção, cerca de 1% ao ano. Falo sobre sarcopenia nesta matéria.

Nas mulheres este processo se exacerba na menopausa, sendo que nos primeiros 6 anos, esta perda pode ser de cerca de 6% ao ano.
Sabemos que aos 65 anos de idade, uma em cada duas mulheres podem ter algum grau de osteoporose. Nesta idade, 1 a cada 5 homens podem ter o mesmo problema e com o passar da idade, este número só aumentam em ambos os sexos.

Alguns fatores predispõem há um maior aumento   para a osteoporose primária relacionada a idade a saber:

- Sexo: maior prevalência entre mulheres.

- Raça: indivíduos da raça negra tem menor predisposição enquanto caucasianos e orientais uma maior predisposição.

- Peso: indivíduos obesos tem uma maior proteção, enquanto indivíduos com baixo peso tem uma maior predisposição.

- Uso de álcool e fumo, aumentam a predisposição.

- Uso abusivo de cafeína em todas as suas formas ( café, chás e refrigerantes) aumentam a predisposição.

-  O sedentarismo é um fator a mais de risco, praticantes de atividade física de resistência tem uma maior proteção, fazendo inclusive parte do tratamento.

- Doenças gastrointestinais que dificultam a absorção de nutrientes como doença inflamatória intestinal, disbiose, doença celíaca, também aumentam a predisposição.

- O uso crônico de corticoide e o alto grau de stress pelo aumento do cortisol.

Neste momento, você deve ter percebido que o assunto é sério, não é mesmo e merece muito a nossa discussão.

Acima eu falo sobre o artigo de junho de 2006 na revista Femina da Febrasgo e este artigo me chamou muito a atenção, pelo fato de a própria Febrasgo falar sobre a necessidade de se rever o assunto, frente ao que se vem publicando mundialmente e sobre a posição tão conservadora da sociedade médica brasileira, sobre o assunto.

Ora o tratamento clássico da osteoporose aqui no Brasil, se baseia em grande parte na reposição de cálcio, vitamina D e algumas vezes bifosfonatos (alendronato e risendronato). Alguns médicos ainda fazem reposição estrogênica e preconizam atividade física.
Mas este tratamento está errado? Você deve estar se perguntando neste momento.

E eu te digo: Não, este tratamento não está errado, mas ao meu ponto de vista totalmente incompleto.

Como assim? Deve ser sua pergunta neste momento.

Ora, quando se estuda o metabolismo ósseo podemos observar que grande parte da constituição óssea vem da formação do colágeno, portanto metabolismo proteico e da função do  osteoblasto. O metabolismo do cálcio é importante mas não é o único.

Quando você suplementa cálcio e vitamina D você apenas faz parte deste processo. Os bifosfonatos atuam nos osteoclastos diminuindo sua atuação, os estrógenos atuam nos osteoblastos estimulando sua ação. Bom então o que falta?

Ora, muita coisa...

Falta por exemplo aumento da ingesta proteica e até mesmo suplementar lisina, prolina e glicina, que são essenciais para a formação de colágeno do tipo I, assim como vitamina C.

O maior aporte proteico, estimula a liberação de um marcador denominado IGF-1 que é a forma ativa do hormônio de crescimento e que está muito ligado ao metabolismo  ósseo.

Um trabalho volumoso, denominado nurses, feito com um número grande de participantes e por um tempo grande de seguimento, que pretendia avaliar vários aspectos sobre a menopausa e seus tratamentos e as consequências deles, num determinado período, chegou a condenar a reposição de cálcio e vitamina D, porque este trabalho mostrava um aumento significativo de complicações cardíacas nestas mulheres. A sociedade médica ficou em polvorossa, com os dados.

Mais tarde, revendo a fisiologia, verificou-se o seguinte: o uso da vitamina D3 mais o aporte de Calcio, junto com o auto consumo de cálcio dietático , causou um desequilíbrio metabólico, isto porque mais uma vez se olhou de forma simplificada para o assunto e esquecer o metabolismo é cruel para nosso organismo, sempre falo isso nos meus artigos.

Bom o que aconteceu neste caso?

A alta concentração de cálcio, aumentou as calcificações em artérias dificultando a nossa circulação e porque isto ocorreu?  Por dois motivos:

-  O cálcio atua em conjunto com o magnésio. O magnésio atua no metabolismo de relaxamento muscular em conjunto com o calcio, que em excesso ( cálcio), fez com que houvesse uma vasoconstrição, aumentando a resistência periférica e causando hipertensão.

- A vitamina D3 atua entre outras coisas aumentando a absorção de cálcio, em excesso este cálcio, começa a se depositar em tecidos no organismo. Quem evita esta deposição é a vitamina K.

Viram como tudo é muito mais complexo?

Quer mais?

Para que a vitamina D atue de maneira correta ela precisa de cofatores ( ajudantes), Entre eles: magnésio, vitamina K ( já citados) vitamina A, zinco, boro.

Alias o Zinco e o boro também são importantes no metabolismo ósseo, por exemplo :

- O zinco atua em várias enzimas criticas no osteoblasto, inclusive na fosfatase alcalina, que é importante para a ativar osteoblastos e aumentar a mineralização óssea.

- Já o boro, atua transformando o estrogênio na sua forma ativa, além de aumentar a rodução de hormônios sexuais através do metabolismo do DHEA.

Mas ainda temos o cobre, o silício, o manganês, o ferro , o flúor. Todos com sua importância e relevância no metabolismo ósseo. Ignorar estes aspectos é pecar na condução do tratamento.

Outro ponto fundamental , dito também acima, é o bom funcionamento intestinal. Se você não tem um bom funcionamento e absorção de nutrientes, de nada adianta repor todos os nutrientes acima.

Por estes e outros motivos, o sucesso no tratamento da osteoporose vai muito além da atual preconização vigente hoje em dia.

 Completo a chance de sucesso, aumenta muito e os riscos de fratura e suas consequências diminuem grandemente.

Pense nisso.


Dra Liliane Lemesin

CRM: 80189